Homo Ludens: por que entender o homem que joga ajuda a entender os videogames
Por que nós jogamos? Às vezes a resposta parece simples. Para se divertir. Para relaxar depois de um dia cansativo. Para competir. Para explorar uma história. Para passar algumas horas com amigos. Mas, quanto mais eu penso sobre videogames, mais tenho a impressão de que essas respostas são apenas a superfície.
Alexandre S. Borges
10/3/20265 min read


Por que nós jogamos?
Às vezes a resposta parece simples. Para se divertir. Para relaxar depois de um dia cansativo. Para competir. Para explorar uma história. Para passar algumas horas com amigos.
Mas, quanto mais eu penso sobre videogames, mais tenho a impressão de que essas respostas são apenas a superfície.
A gente não joga apenas porque os jogos são divertidos. Existe alguma coisa muito mais profunda na nossa relação com o ato de jogar. E foi justamente por isso que um livro publicado originalmente em 1938 me chamou tanto a atenção.
Estou falando de Homo Ludens: O Jogo como Elemento da Cultura, do historiador e filósofo holandês Johan Huizinga.
Minha história com Homo Ludens começou antes mesmo de eu entender por que esse livro era tão importante.
Durante a minha primeira faculdade, no curso de Jogos Digitais do Senac, um professor me recomendou a leitura desse livro. Hoje, infelizmente, eu nem consigo lembrar o nome desse professor. Mas lembro da indicação e possuo o livro até hoje na minha estante.
Só que Homo Ludens está longe de ser apenas um livro sobre jogos.
E quanto mais eu estudo a relação entre videogames, comportamento, psicologia e a maneira como nos relacionamos com o nosso próprio tempo, mais eu percebo como algumas das ideias de Huizinga continuam conversando com perguntas que fazemos até hoje.
Afinal, por que jogamos?
O que acontece conosco quando entramos em um jogo?
Por que criamos regras, competimos, exploramos mundos imaginários e encontramos significado em atividades que, olhando de fora, poderiam parecer completamente inúteis?
E talvez a pergunta mais interessante de todas:
será que jogar é apenas algo que fazemos ou existe algo de essencialmente humano no ato de jogar?
E talvez o mais interessante seja perceber que Huizinga escreveu sobre jogos décadas antes de existir qualquer coisa parecida com videogames.
Não existiam consoles.
Não existiam computadores como conhecemos hoje.
Não existiam MMORPGs, jogos competitivos online, mundos abertos, troféus, battle passes ou lives.
Mesmo assim, quando leio algumas das ideias de Homo Ludens, é difícil não pensar em tudo aquilo que discutimos aqui sobre videogames, comportamento, prazer, competição, regras, imersão e até a maneira como transformamos nosso hobby em obrigação.
Porque Huizinga não estava tentando explicar videogames.
Ele estava tentando entender o ser humano enquanto jogador.
E isso muda completamente a conversa.
Antes do videogame, já existia o jogador
Uma das ideias centrais de Homo Ludens é justamente a importância do jogo para a formação da cultura.
Huizinga questiona uma visão muito comum de que a cultura seria algo produzido pelo ser humano racional, enquanto o jogo seria apenas uma atividade recreativa que fazemos depois de terminar as coisas importantes.
Para ele, a relação pode ser praticamente o contrário.
O jogo não aparece apenas dentro da cultura.
O jogo participa da construção da própria cultura.
Competições, rituais, cerimônias, poesia, música, direito, guerra, disputas e diversas outras manifestações humanas carregam elementos de uma estrutura lúdica.
Existem regras.
Existem espaços determinados.
Existem papéis.
Existem desafios.
Existem vencedores e perdedores.
Existem momentos em que entramos em uma situação diferente daquela que normalmente vivemos.
E quando penso nisso, fica difícil olhar para um videogame simplesmente como "um produto de entretenimento".
Um jogo moderno pode ser extremamente complexo, mas sua essência continua bastante familiar.
Você entra naquele mundo.
Aceita suas regras.
Assume determinado papel.
Aceita seus objetivos.
E começa a jogar.
O que significa ser um Homo Ludens?
O termo Homo Ludens pode ser entendido como "homem que joga".
E acho essa expressão muito mais interessante do que parece inicialmente.
Estamos acostumados com algumas definições do ser humano.
Homo sapiens, o homem que sabe.
Homo faber, o homem que fabrica.
Huizinga propõe olhar também para o ser humano como aquele que brinca, compete, cria regras e participa de atividades lúdicas.
Isso coloca o jogo em uma posição muito diferente.
Ele deixa de ser apenas uma pausa na vida.
Não é simplesmente aquilo que fazemos quando terminamos de trabalhar.
O jogo passa a ser uma dimensão importante da experiência humana.
E isso conversa diretamente com uma das coisas que mais me incomodam quando discutimos videogames atualmente.
Existe uma tendência de tentar justificar o jogo o tempo inteiro.
"Esse jogo melhora sua memória."
"Esse jogo desenvolve raciocínio."
"Esse jogo ensina inglês."
"Esse jogo ajuda na socialização."
"Esse jogo pode melhorar determinadas habilidades."
Tudo isso pode ser interessante.
Mas será que precisamos transformar o jogo em alguma coisa útil para justificar que ele merece existir?
Talvez não.
Talvez jogar já seja uma atividade humana legítima por si só.
E essa é uma das ideias de Homo Ludens que mais conversa com a proposta do Checkpoint Mental.
Jogar não precisa produzir alguma coisa
Essa é uma reflexão que considero especialmente importante para nós, adultos.
Vivemos em uma cultura extremamente preocupada com produtividade.
Precisamos trabalhar.
Precisamos estudar.
Precisamos cuidar da casa.
Precisamos cuidar da família.
Precisamos fazer exercício.
Precisamos aprender alguma coisa.
Precisamos melhorar.
E até o nosso lazer começou a sofrer essa pressão.
De repente, jogar precisa valer a pena.
Precisamos terminar o jogo.
Precisamos aproveitar as horas investidas.
Precisamos completar todas as atividades.
Precisamos platinar.
Precisamos desbloquear tudo.
Precisamos jogar o lançamento antes que outro lançamento apareça.
E quando percebemos, aquilo que deveria ser lazer começa a parecer trabalho.
É justamente aqui que a ideia do jogo como uma atividade separada da vida cotidiana se torna interessante.
Huizinga descreve o jogo como algo que acontece dentro de determinados limites, tanto de tempo quanto de espaço.
Quando jogamos, entramos em uma espécie de realidade temporária.
E isso é fascinante.
Porque significa que o jogo não precisa necessariamente produzir alguma coisa fora dele para ter valor.
A experiência pode ser o próprio objetivo.
E talvez seja exatamente isso que esquecemos algumas vezes.
O que um livro de 1938 tem a ver com videogames em 2026?
Praticamente tudo isso que falei acima é o que torna Homo Ludens tão interessante para mim.
Não porque Huizinga tenha previsto os videogames.
Ele não poderia.
Mas porque ele estava olhando para algo muito mais fundamental.
O comportamento humano diante do jogo.
Os videogames mudaram radicalmente.
O jogador pode estar em uma sala sozinho e, ao mesmo tempo, competir com alguém do outro lado do planeta.
Um jogo pode durar quinze minutos ou milhares de horas.
Um mundo pode ser completamente virtual.
As regras podem ser calculadas por milhões de linhas de código.
Mas algumas coisas continuam reconhecíveis.
Nós ainda queremos descobrir.
Competir.
Criar.
Explorar.
Vencer.
Perder.
Aprender.
Ser surpreendidos.
Pertencer.
E, principalmente, brincar.
O livro nos ajuda a olhar para os videogames não apenas como produtos tecnológicos, mas como uma manifestação de algo muito mais antigo.
Talvez a pergunta não seja "por que jogamos videogame?"
Depois de conhecer algumas das ideias de Huizinga, comecei a achar essa pergunta pequena demais.
Talvez a pergunta mais interessante seja:
por que o ser humano precisa jogar?
Porque quando colocamos dessa maneira, videogames deixam de ser o centro da discussão.
Eles são apenas uma das formas que encontramos para expressar algo que já estava conosco muito antes de existirem telas.
Jogamos cartas.
Jogamos bola.
Jogamos xadrez.
Brincamos de faz de conta.
Criamos competições.
Criamos regras.
Criamos mundos imaginários.
Criamos desafios.
E agora fazemos tudo isso através de computadores e consoles.
O videogame não inventou o homem que joga.
Ele apenas deu a esse homem uma quantidade praticamente inimaginável de possibilidades.
Se essa ideia de entender o jogo para além do simples entretenimento despertou sua curiosidade, Homo Ludens é uma leitura que vale muito a pena conhecer. Foi um daqueles livros que chegaram até mim há muitos anos e que, mesmo depois de tanto tempo, continuam fazendo sentido quando olho para a forma como nos relacionamos com os videogames hoje.
Se você quiser conhecer o livro também, deixo aqui o link para encontrá-lo na Amazon:
Homo Ludens: O Jogo como Elemento da Cultura na Amazon https://link.amazon/B0hET4J4y
Talvez você termine a leitura olhando para os jogos de uma maneira um pouco diferente. Eu certamente passei a olhar.


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