Jogar Ouvindo Música ou Podcast: Multitarefa Está Matando Sua Imersão nos Games?
Colocar um podcast enquanto faz grind. Deixar um vídeo rolando no segundo monitor. Abrir o Spotify no fundo porque “o jogo é meio parado”. Esse hábito se tornou comum, especialmente para quem joga no PC ou títulos mais longos, repetitivos ou competitivos. Mas existe uma pergunta importante aqui: Quando você joga fazendo outra coisa ao mesmo tempo, você realmente está jogando… ou só preenchendo silêncio?
Alexandre Souza Borges
2/11/20263 min read


A multitarefa pode parecer produtiva, mas do ponto de vista psicológico, ela costuma custar algo precioso: imersão, presença e conexão emocional com o jogo.
E, ironicamente, pode ser exatamente isso que está fazendo você perder o interesse pelos games.
O Mito da Multitarefa: Seu Cérebro Não Faz Duas Coisas Bem Ao Mesmo Tempo
A ideia de que conseguimos prestar atenção plena em duas atividades complexas simultaneamente é um mito.
O que chamamos de “multitarefa” é, na verdade, troca rápida de foco.
Quando você está:
jogando
ouvindo um podcast
acompanhando um vídeo
respondendo mensagens
seu cérebro alterna entre estímulos.
Cada troca gera um pequeno “custo cognitivo”.
Esse custo reduz:
profundidade de processamento
retenção de memória
envolvimento emocional
percepção de detalhes
Você continua jogando.
Mas não está totalmente ali.
E videogames dependem profundamente de atenção sustentada para criar impacto.
Imersão: O Que Acontece Quando Você Está 100% Presente
Imersão não é só gráfico bonito.
Imersão é quando:
você esquece do tempo
sente tensão real numa batalha
se importa com um personagem
percebe detalhes de som e ambientação
entra em estado de flow
O flow, conceito estudado na psicologia por Mihaly Csikszentmihalyi acontece quando:
desafio e habilidade estão equilibrados
a atenção está totalmente focada
não há distrações externas
Colocar música ou podcast quebra exatamente esse estado.
Você fragmenta sua experiência, e um jogo fragmentado raramente é memorável.
O Problema Não É a Música, é a Fuga do Silêncio
Existe uma diferença importante aqui.
Alguns jogadores escutam música porque:
já zeraram o jogo
estão fazendo tarefas repetitivas
querem substituir trilhas fracas
Mas em muitos casos, o hábito nasce de algo diferente:
incapacidade de tolerar silêncio e foco único.
Estamos tão acostumados a estímulo constante que:
jogar “só o jogo” parece pouco
silêncio parece tédio
pausas parecem desconfortáveis
Então adicionamos mais estímulo.
O resultado?
Você nunca aprofunda nenhuma experiência.
Como Isso Pode Fazer Você Perder o Interesse Pelo Jogo
Aqui está o ponto mais importante.
Quando você joga com atenção dividida:
não absorve bem a história
não percebe nuances
não se conecta emocionalmente
não internaliza mecânicas
O jogo passa por você.
Depois de algumas horas, você sente:
“esse jogo não me pegou”
“tá meio sem graça”
“não senti nada”
“não me prendeu”
Mas talvez o problema não seja o jogo.
Talvez você nunca tenha estado realmente presente nele.
Experiências profundas exigem envolvimento profundo.
Se você transforma o jogo em “plano de fundo”, ele nunca será protagonista.
Dopamina Fragmentada e Saturação de Estímulo
Quando você joga e consome outro conteúdo ao mesmo tempo, está empilhando estímulos.
Isso pode gerar:
excesso de dopamina rápida
menor tolerância a momentos lentos
impaciência com diálogos
dificuldade em jogos mais contemplativos
Com o tempo, seu cérebro começa a exigir:
mais intensidade
mais ação
mais estímulo simultâneo
Jogos narrativos, estratégicos ou atmosféricos passam a parecer “parados demais”.
Não porque são ruins, mas porque sua régua de estímulo foi alterada.
Quando Faz Sentido Jogar Ouvindo Algo
Nem todo cenário é problemático.
Existem contextos onde isso faz sentido:
farming repetitivo em MMO
jogos já zerados
partidas casuais competitivas
tarefas mecânicas automáticas
O problema começa quando isso vira padrão para tudo.
Se você não consegue jogar um single player narrativo sem colocar algo junto, talvez exista uma dependência de estimulação constante.
A Experiência Memorizável Exige Presença
Pense nos jogos que mais marcaram sua vida.
Provavelmente você lembra:
da trilha sonora específica
do silêncio antes de uma revelação
de um diálogo que arrepiou
de um momento tenso
Essas memórias surgem porque você estava 100% ali.
Presença cria memória, distração cria ruído.
Teste Prático: Experimente Jogar Diferente
Se você quer redescobrir prazer nos games, tente o seguinte:
Escolha um jogo narrativo ou atmosférico.
Jogue sem música externa.
Feche segundo monitor.
Silencie notificações.
Jogue por pelo menos 1 hora sem interrupção.
Observe:
sua respiração
sua concentração
seu nível de envolvimento
sua percepção de detalhes
Pode parecer estranho no começo, mas depois de alguns minutos, algo muda.
Você entra no jogo e o jogo entra em você.
O Que Está Por Trás do Hábito?
Às vezes o comportamento revela algo maior:
medo de ficar sozinho com seus pensamentos
dificuldade de foco prolongado
ansiedade
TDAH não tratado
necessidade constante de estímulo
Nesse caso, o jogo virou um suporte para outro problema.
E não há julgamento aqui.
Mas há consciência.
Se você precisa de três estímulos ao mesmo tempo para se sentir confortável, talvez a questão não seja o jogo.
Conclusão
Jogar ouvindo música ou podcast não é errado.
Mas jogar sempre disperso pode estar roubando de você:
imersão
conexão
emoção
memória
prazer genuíno
Você pode estar culpando os jogos por algo que é consequência da sua atenção fragmentada.
Às vezes o que falta não é um jogo melhor.
É presença.
Se você quer se reconectar com o prazer de jogar, talvez o primeiro passo seja simples:
Desligar o segundo estímulo e ficar só você e o jogo.


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