Por Que Preferimos Competir? A Psicologia por Trás dos Jogos PvP

Se você parar pra pensar, muitos dos jogos mais jogados hoje em dia são PvP — seja em FPS, MOBAs, battle royales ou MMOs competitivos. Não é por acaso: há algo profundamente humano no desejo de competir. Esse impulso pode ser analisado tanto sob uma lente cultural quanto evolutiva. E para entender por que tantos jogadores preferem esse tipo de jogo ativo, vale trazermos à tona ideias tão antigas quanto a própria cultura: como as reflexões do filósofo Johan Huizinga em Homo Ludens.

Alexandre Souza Borges

11/30/20254 min read

O humano, o jogo e a competitividade (segundo Huizinga)

Em Homo Ludens, Johan Huizinga argumenta que o jogo é mais do que um mero passatempo — ele é um elemento fundamental da cultura. Para ele, o “jogo” precede a cultura: somos, antes de tudo, Homo Ludens, o homem que joga.

Huizinga destaca especialmente o caráter agonístico do jogo — ou seja, o aspecto da competição. Ele vê a competição lúdica (agon) como algo que está na raiz de muitas instituições culturais, desde rituais até esportes: a vitória no jogo muitas vezes simboliza prestígio, honra ou status.

Portanto, quando olhamos para games PvP (Player vs Player), estamos vendo uma manifestação moderna desse impulso arraigado de competição: o jogo entre humanos não é apenas uma estrutura técnica, mas algo que ressoa culturalmente e psicologicamente em nossa natureza.

Por que muitos jogadores preferem PvP hoje

  1. Competição direta ativa

    No PvP, você está competindo com outro ser humano em tempo real — não com algoritmos previsíveis. Isso gera tensão, imprevisibilidade e satisfação quando vence, porque a escolha e habilidade do outro jogador entram na equação.

  2. Rejogabilidade e longevidade

    Jogos PvP têm alto potencial de replay: enquanto em PvE (Player vs Environment) você pode “zerar” uma campanha ou terminar missões, no PvP sempre há novos adversários, novas estratégias, rankings. Isso incentiva os jogadores a voltarem mais vezes, mantendo a base ativa.

  3. Valor social e status

    A vitória em PvP carrega reconhecimento — seja no jogo (rankings, recompensas) ou social (stream, comunidade). Esse status lúdico é parte do que Huizinga chama de “valor simbólico” do jogo.

  4. Economia de jogos como serviço

    Muitos jogos modernos são “live services”, com temporadas, rankeds e competições constantes. Isso favorece PvP, porque os desenvolvedores querem engajamento recorrente.

  5. Motivação intrínseca

    A competitividade é intrínseca ao ser humano. Como aponta Huizinga (e reforçado por pensadores lúdicos modernos), o jogo tem valor por si só: participar, competir, demonstrar habilidade — não necessariamente “ganhar algo externo”.

A questão dos jogos PvE

Se PvP domina muitos rankings de atividade, por que os jogos PvE (contra ambiente/IA) ainda existem e têm tantos fãs? Aqui estão alguns motivos importantes:

  • PvE para muitos é a forma de experimentar narrativa e imersão: campanhas, histórias e missões estruturadas são mais atrativas para quem procura uma experiência profunda, contemplativa e menos estressante.

  • Apreciados, mas terminados: muitos jogadores de PvE completam o conteúdo — a “viagem” da campanha, as missões principais — e então partem. Isso significa que o número de jogadores ativos no longo prazo pode ser menor, porque não há tanto incentivo para voltar uma vez que o conteúdo foi consumido.

  • Menos replay infinito: ao contrário do PvP, onde o “adversário” é sempre humano e as partidas são variadas, PvE pode ter limitação, especialmente em jogos narrativos ou lineares. Isso reduz a retenção de jogadores em alguns casos.

  • Desempenho vs diversão: enquanto PvP é medido por habilidade, rank e competição, PvE oferece possibilidade de relaxar, explorar e se divertir no seu ritmo.

Por esses motivos, mesmo que PvE tenha uma base grande e dedicada, ele nem sempre domina os gráficos de “jogadores ativos” em tempo real — porque muitos jogadores terão “zerado” ou completado o conteúdo, ou jogam esporadicamente.

A correlação entre nossa natureza lúdica e a preferência por PvP

Unindo as ideias de Huizinga com o comportamento moderno dos jogadores, podemos sugerir:

  • O impulso agonístico humano (competitivo) continua poderoso.

  • Jogos PvP exploram esse impulso de forma eficaz, oferecendo desafio, status e interação social.

  • A cultura do game moderno — com live services, e-sports, comunidade online — reforça esse modelo competitivo.

  • Ao mesmo tempo, o PvE ainda preserva o lado contemplativo e narrativo do jogo, mas tende a atrair menos “atividade constante” em comparação com modos PvP.

Conclusão

Não é coincidência que muitos dos jogos mais populares e ativos hoje sejam PvP. Há uma ligação profunda entre o humano e a competição, e os jogos eletrônicos exploram essa conexão de forma eficaz.

As ideias de Johan Huizinga em Homo Ludens mostram que o jogo não é apenas diversão: ele é parte da cultura, da identidade e da forma como nos relacionamos. A competição lúdica (agonística) está no cerne dessa relação, e o PvP é a expressão moderna dessa dinâmica ancestral.

Porém, isso não desvaloriza o PvE: os modos contra ambiente têm seu espaço, especialmente para aqueles que buscam história, imersão e uma experiência mais pessoal. Mas, por sua própria natureza, pode ser menos “sempre ativo” do que a competição entre jogadores.

No fim das contas, a prevalência do PvP entre os jogos mais ativos reflete algo humano — algo que jogamos por prazer, por desafio e por conexão — e que, desde sempre, tem sido parte de quem somos: Homo Ludens.

Referências

  • Huizinga, Johan. Homo Ludens: o jogo como elemento da cultura. Livro

  • Ludosofia – “O espírito de competição lúdica como impulso social antigo”. ludosofia.com.br

  • Metoludi – sobre a função cultural da competição nos jogos segundo Huizinga. metoludi.com.br

  • Estudo “Dynamic Difficulty Adjustment on MOBA Games” (referência à motivação e desafio nos modos competitivos). [arxiv.org](https://arxiv.org/abs/1706.02796?)