Videogames e Procrastinação: Quando Jogar Deixa de Ser Lazer e Vira Escapismo

Procrastinação é uma palavra que carrega culpa. Ela costuma ser associada à preguiça, falta de disciplina ou irresponsabilidade. Mas a psicologia mostra algo diferente: procrastinar raramente é sobre não querer fazer algo — é sobre evitar como aquilo nos faz sentir. E nesse cenário, os videogames ocupam um lugar especial.

Alexandre Souza Borges

1/18/20263 min read

O que a psicologia entende por procrastinação?

Procrastinação não é simplesmente “deixar para depois”.

Ela está ligada a:

  • evitação emocional

  • medo de falhar

  • medo de começar

  • sobrecarga mental

  • ansiedade

  • baixa tolerância à frustração

  • dificuldade de autorregulação

Em vez de enfrentar uma tarefa que gera desconforto, o cérebro busca algo que ofereça alívio imediato.

E poucas coisas fazem isso tão bem quanto videogames.

Para milhões de pessoas, jogar é relaxamento, diversão, criatividade e até socialização. Mas, para outras, o jogo se transforma em um refúgio constante — um lugar onde é mais fácil ficar do que encarar tarefas difíceis, decisões importantes ou emoções desconfortáveis.

Este artigo explora a relação entre videogames e procrastinação, entendendo por que jogos são tão eficientes como ferramenta de adiamento, quando isso se torna um problema psicológico e como recuperar o equilíbrio sem abandonar o hobby.

Por que videogames são tão eficazes para procrastinar?

Jogos têm características que os tornam perfeitos como ferramenta de fuga psicológica:

1. Recompensa imediata

Enquanto tarefas da vida real oferecem recompensas distantes e incertas, os jogos entregam:

  • feedback instantâneo

  • sensação de progresso

  • metas claras

  • recompensas frequentes

  • sensação de controle

O cérebro prefere o que é previsível e recompensador agora.

2. Estrutura clara (algo que a vida real nem sempre tem)

Jogos dizem exatamente:

  • o que você precisa fazer

  • como fazer

  • quando fez certo

  • qual será a próxima meta

Já a vida real costuma ser vaga, confusa e sem feedback imediato.

Quando estamos cansados ou ansiosos, o jogo parece muito mais acolhedor.

3. Sensação de competência e controle

Em jogos, mesmo falhando, você sente que:

  • pode melhorar

  • pode tentar de novo

  • o erro faz parte

  • o progresso é possível

Na vida real, o erro costuma ter consequências emocionais maiores.

Isso faz com que o jogo se torne um espaço onde é mais seguro existir.

Quando jogar deixa de ser lazer e vira procrastinação?

Nem todo jogo é procrastinação.

A diferença está na intenção e no impacto.

Jogar vira procrastinação quando:

  • é usado repetidamente para evitar tarefas importantes

  • gera culpa logo após a sessão

  • começa “só por alguns minutos” e vira horas

  • substitui responsabilidades básicas

  • interfere em sono, estudos ou trabalho

  • vira resposta automática ao estresse

Nesse ponto, o jogo não é mais lazer.

Ele vira mecanismo de regulação emocional.

Procrastinação, dopamina e alívio emocional

Jogos ativam fortemente o sistema dopaminérgico.

Isso significa:

  • alívio rápido da tensão

  • redução temporária da ansiedade

  • sensação de prazer ou engajamento

  • esquecimento momentâneo dos problemas

O problema não é sentir isso.

O problema é quando o cérebro aprende que jogar é a principal forma de lidar com desconforto.

Aos poucos, tarefas difíceis passam a parecer ainda mais pesadas — porque competem com uma fonte de alívio muito mais eficiente.

A armadilha psicológica: quanto mais você procrastina, mais difícil fica começar

Existe um ciclo clássico:

  1. tarefa gera desconforto

  2. você joga para aliviar

  3. alívio imediato

  4. culpa por não ter feito a tarefa

  5. tarefa parece ainda maior

  6. mais ansiedade

  7. mais vontade de fugir

  8. mais jogo

O jogo não cria o problema sozinho, mas reforça o ciclo.

E quanto mais esse padrão se repete, mais difícil fica quebrá-lo.

Tipos de jogos mais associados à procrastinação

Não por serem “ruins”, mas por seu design:

  • jogos com progressão infinita

  • MMOs

  • live services

  • jogos de grind

  • gacha / loot boxes

  • jogos sem fim claro

  • jogos que “sempre têm algo para fazer”

Eles não exigem decisão de parar.

E para quem já está procrastinando, isso é extremamente perigoso.

Jogos também podem ajudar a combater a procrastinação?

Sim — dependendo de como são usados.

Jogos podem ajudar quando:

  • são usados como recompensa planejada

  • têm sessões curtas

  • possuem início, meio e fim claros

  • ajudam a regular humor após tarefas difíceis

  • não invadem horários críticos

  • não são usados como fuga emocional automática

Para algumas pessoas, jogar depois de cumprir uma tarefa ajuda na motivação.

O problema é jogar para evitar começar.

O papel da consciência: por que você está jogando agora?

Uma pergunta simples muda tudo:

“Estou jogando porque quero… ou porque estou fugindo?”

Não é uma pergunta para gerar culpa.

É para gerar consciência.

Procrastinação não se resolve com força bruta, mas com compreensão do que está sendo evitado.

Estratégias práticas para quebrar o ciclo

Sem demonizar jogos:

  • Defina horários claros para jogar

  • Evite “só um pouquinho”

  • Use jogos como recompensa, não como fuga

  • Quebre tarefas grandes em microtarefas

  • Comece mesmo sem vontade

  • Aceite desconforto inicial

  • Observe padrões emocionais antes de jogar

  • Escolha jogos com sessões fechadas

  • Tire notificações

Pequenos ajustes mudam o comportamento.

Conclusão: jogos não são o problema — mas podem virar anestesia

Videogames são uma das formas mais ricas de entretenimento já criadas.

Eles oferecem arte, desafio, socialização, narrativa e prazer.

Mas quando usados como anestesia emocional constante, deixam de ser aliados e passam a reforçar padrões de evitação.

Procrastinação não é fracasso moral.

É um sinal.

E aprender a ouvir esse sinal é muito mais eficaz do que simplesmente “jogar menos”.

Talvez o caminho não seja abandonar os jogos.

Talvez seja reaprender a usá-los no lugar certo da vida.