Videogames e Saúde Mental: Quando o Uso Exagerado Deixa de Ser Lazer e Se Torna Problema

Videogames são parte da vida de muitas pessoas, especialmente entre adolescentes e jovens. No Brasil, uma pesquisa conduzida pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP) mostrou que 85% dos adolescentes entre 12 e 14 anos jogam videogames regularmente. Esse dado ilustra o quanto jogos eletrônicos estão presentes no cotidiano das novas gerações.

Alexandre Souza Borges

6/14/20265 min read

Mas até que ponto jogar deixa de ser uma atividade saudável e passa a comprometer a saúde mental, o bem-estar e o funcionamento diário? É essa diferença entre entretenimento equilibrado e uso problemático que vem sendo estudada por pesquisadores e os resultados lançam luz sobre riscos importantes.

O que os pesquisadores da USP encontraram

A pesquisa da USP avaliou o uso de videogames entre adolescentes e identificou que aproximadamente 28% dos entrevistados se encaixam nos critérios de um padrão de uso problemático, definido como Transtorno de Jogo pela Internet (TJI).

O TJI não se refere apenas a jogar muitas horas. Ele envolve um quadro onde as atividades diárias começam a perder importância em relação ao jogo. Como alimentação, sono, responsabilidades escolares ou sociais e o indivíduo continua a jogar mesmo frente a consequências negativas.

Os principais sinais incluem:

  • Perda de controle: dificuldade em iniciar, manter ou terminar sessões de jogo conforme planejado.

  • Prioridade aumentada aos jogos: outras atividades cotidianas passam a ser negligenciadas.

  • Persistência apesar de prejuízos: seguir jogando mesmo quando isso atrapalha estudos, sono ou relações sociais.

Por que isso pode impactar a saúde mental

Segundo profissionais ouvidos no contexto da pesquisa, entre os fatores que tornam o uso excessivo de videogames um problema estão:

Busca por alívio emocional em vez de lazer

Para algumas pessoas, especialmente aquelas com dificuldades como ansiedade social, baixa tolerância à frustração ou autoestima fragilizada, os jogos se tornam uma forma de evitar enfrentar aspectos estressantes da vida real.

Nesse cenário, jogar pode ser mais recompensador do que:

  • interações presenciais,

  • resolução de conflitos no dia a dia,

  • desafios acadêmicos ou profissionais.

Em vez de proporcionar descanso saudável, o jogo passa a ser um mecanismo de escape, o que pode reforçar um padrão de evitação psicológica.

Relação com outras vulnerabilidades psicológicas

O psiquiatra consultado na pesquisa aponta que pode haver uma conexão entre o uso problemático de videogames e transtornos mentais, como depressão, transtorno bipolar e TDAH embora ainda não se saiba se o videogame causa o transtorno ou se os transtornos preexistentes contribuem para o uso excessivo.

O que se observa clinicamente é que indivíduos com níveis elevados de estresse, ansiedade ou dificuldades de regulação emocional tendem a buscar estímulos constantes e imediatos, algo que muitos videogames oferecem por meio de feedback rápido, ciclos de recompensa e desafios contínuos.

Consequências físicas e comportamentais

Além do impacto psicológico, o uso desequilibrado de videogames também pode acarretar sinais físicos e comportamentais:

  • Alterações no sono: jogar tarde da noite ou por muitas horas pode afetar a qualidade e a duração do sono.

  • Dores musculares e postura inadequada: sessões prolongadas de jogo podem causar tensão no pescoço, ombros e costas.

  • Problemas de concentração: quando o jogo passa a ser preferido em relação a outras atividades cognitivas, a atenção e o desempenho em tarefas escolares ou profissionais podem sofrer.

  • Isolamento social: em casos extremos, preferir a tela à interação real pode reduzir habilidades de socialização e aumentar sentimentos de solidão ou desconexão.

Fatores como falta de atividade física, padrões de sono irregulares e falta de equilíbrio nas rotinas diárias intensificam esses efeitos negativos.

Uso problemático não é sinônimo de jogar muito

É importante frisar que a quantidade de horas por si só não define um problema de saúde mental. Algumas pessoas jogam diversas horas por hobby, sem prejuízo para outras áreas da vida. O que caracteriza o uso problemático é o padrão de relação com o jogo, quando ele toma prioridade sobre aspectos essenciais da vida e compromete bem-estar emocional e social.

Pesquisas internacionais sugerem que não é apenas o tempo de tela que importa, mas o impacto dessa atividade na rotina, no humor, nas relações e no funcionamento geral do indivíduo.

Como reconhecer sinais de uso problemático

Alguns dos indicadores que podem sugerir um padrão de uso que merece atenção incluem:

  • Sentir que jogar interfere no sono ou no desempenho escolar/profissional.

  • Isolar-se de amigos e família para jogar.

  • Jogar como forma exclusiva de aliviar emoções difíceis.

  • Sentir irritação, ansiedade ou desconforto ao tentar parar de jogar.

  • Negligenciar autocuidado, alimentação ou atividade física por causa dos jogos.

Não é necessário sentir todos esses sinais para considerar que há um problema, muitas vezes, apenas alguns deles já valem uma reflexão mais profunda.

O papel de pais, educadores e profissionais

A pesquisa da USP e profissionais da área ressaltam a importância de:

  • diálogo aberto sobre o uso de jogos com crianças e adolescentes;

  • limites de tempo e monitoramento saudável;

  • incentivar atividades variadas; físicas, sociais, acadêmicas;

  • buscar apoio profissional quando o jogo começa a afetar negativamente a vida do indivíduo.

Em vez de demonizar os videogames, a recomendação é entender quando e por que o jogo passa a ocupar um lugar disfuncional na vida de alguém.

Conclusão

Videogames são uma forma de entretenimento amplamente difundida e potencialmente benéfica quando usados com equilíbrio. Contudo, quando o consumo se torna tão intenso que começa a interferir em sono, alimentação, relações sociais, desempenho escolar ou bem-estar emocional, é sinal de que o uso pode ter ultrapassado o limite saudável.

A pesquisa da USP aponta que um número considerável de adolescentes apresenta um padrão de uso que se aproxima dos critérios de dependência comportamental o que reforça a necessidade de atenção consciente ao modo como jogos eletrônicos se inserem na rotina de cada um.

Qualquer relação com o jogo que cause prejuízo emocional ou funcional merece ser discutida com um profissional qualificado e abordada com empatia, equilíbrio e foco no bem-estar.

Fontes e Referências

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