Videogames e TDAH: Quando os jogos podem virar aliados da atenção
O transtorno de déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) costuma trazer desafios de foco, impulsividade e regulação de comportamento — especialmente na infância e adolescência. Mas e se os videogames, frequentemente vistos como vilões para quem tem TDAH, pudessem oferecer algo de bom?
Alexandre Souza Borges
12/20/20256 min read


O que as pesquisas dizem: videogames como ferramenta terapêutica
Revisões sistemáticas apontam benefícios na cognição e atenção
Nos últimos anos, pesquisas vêm investigando se jogos — especialmente quando bem planejados — podem ajudar no tratamento ou no manejo de sintomas do TDAH. Vamos ver como isso funciona, quais as evidências e quais cuidados devemos ter.
Uma publicação recente revisou diversos estudos sobre videogames voltados para saúde mental, e concluiu que jogos digitais podem trazer benefícios modestos, porém reais, para crianças e adolescentes com TDAH — ajudando a melhorar a atenção sustentada e reduzindo alguns sintomas do transtorno.
Outra revisão específica sobre “serious games” (jogos projetados com objetivos terapêuticos ou de reabilitação cognitiva) identificou que esses jogos podem melhorar funções executivas, controle inibitório, memória de trabalho e regulação comportamental em pessoas com TDAH.
Isso indica que — quando desenhados de forma estratégica — videogames não são apenas entretenimento, mas podem atuar como complemento às terapias tradicionais.
Jogos estruturados e com objetivos claros ajudam no controle da impulsividade e foco
Estudos mostram que videogames que exigem tarefas com metas claras, atenção concentrada e estímulos consistentes ajudam crianças e adolescentes com TDAH a exercitar capacidades como planejamento, foco visual, memória operacional e regulação de impulsos.
Esse tipo de “treino cognitivo lúdico” pode ser mais atraente para quem tem TDAH do que métodos tradicionais, pois usa elementos de recompensa, desafio e feedback imediato — componentes que geralmente ajudam a manter o engajamento de quem tem dificuldade de atenção.
Melhor adesão ao tratamento comparado com terapias comuns
Uma revisão recente que analisou 18 estudos concluiu que intervenções baseadas em videogames mostraram boa adesão — ou seja, os participantes mantiveram a frequência e interesse — algo nem sempre garantido em terapias convencionais.
Para crianças e adolescentes com TDAH, manter a consistência é um dos principais desafios. O videogame, por ser envolvente, pode servir como ponte para tornar o tratamento mais interessante e sustentável.
Possível melhora em habilidades cognitivas gerais em jogadores frequentes
Há evidências de que crianças que jogam videogames com certa regularidade (e de forma moderada) podem apresentar melhor desempenho em testes de memória de trabalho, controle de impulsos e funções cognitivas comparado a quem não joga.
Isso sugere que, fora do contexto terapêutico formal, o jogo pode ajudar a exercitar e manter certas funções cognitivas relacionadas à atenção.
Os riscos e o lado “obscuro”: por que videogames não são solução universal
Apesar dos dados positivos, é preciso ter cuidado. A relação entre videogames e TDAH não é isenta de riscos, especialmente se o uso for descontrolado.
Maior risco de uso problemático / dependência em pessoas com TDAH
Estudo com adultos mostrou que quanto mais graves os sintomas de TDAH, maior a chance de desenvolver dependência de videogame — especialmente em títulos que oferecem recompensas frequentes e estímulos intensos.
Outro estudo concluiu que adolescentes com TDAH têm maior tendência a uso problemático de jogos, com prejuízos sociais, acadêmicos ou familiares.
Ou seja: o próprio transtorno — impulsividade, busca por estímulo, dificuldade de autorregulação — pode tornar a pessoa mais vulnerável ao lado negativo dos games.
Benefícios dependem de estrutura, moderação e supervisão
Os estudos positivos geralmente se referem a jogos desenhados especificamente para TDAH ou a uso com duração limitada e programada (ex: 20–45 minutos, 3–5 vezes por semana).
Sem essa disciplina, existe o risco de que o jogo vire apenas mais uma fonte de distração, e agrave problemas de atenção ou impulsividade — exatamente o que se tenta mitigar.
Nem todos os jogos trazem benefícios — e nem todos os perfis se beneficiam igualmente
Nem todos os títulos funcionam como “terapia”. Jogos com estímulos descontrolados, recompensas imediatas, violência, excesso de estímulos visuais ou sociais podem acabar aumentando a sobrecarga sensorial e emocional. Estudos alertam que o benefício não é garantido para “jogadores recreativos com TDAH” — ou seja, o contexto e o jogo importam muito.
Como videogames podem ajudar quem tem TDAH — com responsabilidade
Com base nas evidências, aqui vão algumas boas práticas para quem tem TDAH e usa videogames com objetivo de benefício:
Prefira jogos com estrutura clara: metas, objetivos, feedbacks, ritmo regulado.
Use com moderação: sessões curtas (20–45 min), intercaladas com pausas.
Escolha jogos com estímulos equilibrados — sem excesso de barulhos, luzes, distrações extremas.
Combine com tratamento profissional — videogame não substitui terapia, mas pode ser um apoio.
Prefira “Jogos sérios” ou jogos desenhados para treinamento cognitivo / regulação.
Monitore o impacto no dia a dia — sono, humor, foco, socialização. Se houver piora, reavalie.
Lista de jogos e tipos recomendados
Abaixo você encontra uma lista prática, baseada nas evidências mencionadas acima, para ajudar na escolha de jogos que tendem a oferecer benefícios para quem tem TDAH — quando usados com moderação e supervisão.
Observação: essa lista complementa as boas práticas já descritas no artigo. Não substitui orientação profissional.
1) Jogos criados especificamente para TDAH / “serious games”
EndeavorRx (Akili Interactive) — jogo clinicamente estudado e aprovado para tratamento de TDAH infantil; sessões estruturadas e objetivos claros.
NeuroRacer — pesquisa acadêmica (Gazzaley et al.) mostrou melhora em multitarefa e atenção em adultos; base de evidência importante para “brain training” baseado em jogos.
Cogmed (programas de memória de trabalho) — abordagens digitais que trabalham memória operacional.
2) Jogos que treinam atenção sustentada e foco visual
Tetris Effect — exige atenção visual contínua e pode melhorar processamento de informação.
Portal 1 & 2 — puzzles que exigem foco, raciocínio espacial e solução lógica.
The Witness — quebra-cabeças que reforçam atenção sustentada e perseverança.
3) Jogos de puzzle e raciocínio (memória de trabalho)
Chess.com / Xadrez — treina planejamento e memória de trabalho.
Baba Is You — lógica e flexibilidade cognitiva.
Human Resource Machine / Opus Magnum — puzzles de programação/planejamento.
4) RPGs táticos e por turnos (reduzem impulsividade)
Fire Emblem — demanda planejamento e decisões meditadas.
XCOM 2 — estratégia por turnos que exige antecipação e planejamento.
Pokémon (jogos principais) — ritmo tático que permite pausas e planejamento.
5) Jogos calmos e de ritmo controlado (regulação emocional)
Stardew Valley — rotina, objetivos claros e ritmo relaxante.
Animal Crossing: New Horizons — baixo estresse, social leve e rotina previsível.
Journey / ABZÛ / Spiritfarer — experiências contemplativas e emocionais.
6) Jogos com rotinas e tarefas estruturadas (bom para organização)
My Time at Portia
Slime Rancher
Terraria
Esses jogos incentivam manejo de tempo, prioridades e pequenas rotinas diárias.
7) Jogos de ação moderada (quando usados com limites)
Ratchet & Clank — ação com desafios controlados e ritmo moderado.
Splatoon 3 (modo casual) — exige foco e coordenação, mas pode ser limitado em tempo.
8) Jogos a evitar ou usar com cautela (maior risco de uso problemático)
Gacha games / loot boxes (ex.: Genshin Impact) — recompensas rápidas e imprevisíveis que podem alimentar comportamento impulsivo.
MMOs de grind infinito — risco de horas excessivas sem pausa.
Jogos de estímulo infinito (alguns modos de Roblox, jogos mobile hiper-casuais)
Por que a lógica dos games conversa tanto com quem tem TDAH
Pessoas com TDAH muitas vezes têm sensibilidade diferente a estímulos: buscam novidade, incentivo imediato, mudança constante. Os videogames — com seus desafios, recompensas, ritmo acelerado — podem “casar” com esse perfil.
Quando bem usados, videogames transformam tarefas de atenção, memória ou controle em algo prazeroso — o que facilita engajamento e motivação. Isso explica por que jogos podem ser uma ferramenta útil, especialmente para jovens e crianças que têm dificuldade com métodos tradicionais de tratamento ou ensino.
Mas justamente por esse potencial — e pela vulnerabilidade natural de quem tem TDAH — é fundamental usar com responsabilidade.
Conclusão
Videogames podem ser aliados poderosos para quem tem TDAH — desde que usados com consciência, moderação e critérios. Há evidências científicas de que jogos bem planejados ajudam a melhorar atenção, funções executivas e autorregulação, e que podem complementar tratamentos convencionais.
Por outro lado, o uso descontrolado, especialmente em jogos altamente estimulantes, pode agravar impulsividade, dependência e prejuízos sociais ou acadêmicos.
Se você tem TDAH — ou conhece alguém — vale considerar os videogames como uma ferramenta: flexível, acessível e, com limites, potencialmente benéfica. Mas sempre com equilíbrio e responsabilidade.
Fontes e Referências
Video games for the assessment and treatment of attention-deficit/hyperactivity disorder: a systematic review. PubMed
Serious Video Games: Angels or Demons in Patients With Attention-Deficit Hyperactivity Disorder? A Quasi-Systematic Review. Frontiers+1
Adherence, frequency, and long-term follow-up of video game–based treatments in patients with attention-deficit/hyperactivity disorder: A systematic review. PubMed
Specially Designed Video Games May Benefit Mental Health of Children and Teenagers (Johns Hopkins, 2024). Hopkins Medicine
Evaluation of Problematic Video Game Use in Adolescents with ADHD and without ADHD: New Evidence and Recommendations. MDPI
Multiple Ways in Which Video Games Make Education Inclusive: A Systematic Review of Cognitive Enhancement for Neurodivergent Learners. MDPI
Estudo brasileiro de 2013: videogame e controle inibitório no TDAH. UOL Notícias
EndeavorRx (Akili Interactive) — jogo aprovado para TDAH: https://www.endeavorrx.com
Gazzaley, A. et al. NeuroRacer — estudos sobre treinamento cognitivo baseado em jogos (referências acadêmicas originais).
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